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sábado, 10 de dezembro de 2011

Mais ou Menos

Afinidade acontece. Um mesmo signo, um mesmo par de sapatos caramelo, um mesmo livro de cabeceira. Afinidade acontece entre seres humanos. A mesma frase dita ao mesmo tempo, o diálogo mudo dos olhares e a certeza das semelhanças entre o que se canta e o que se escreve. Afinação acontece. Um mesmo acorde, um mesmo som, uma mesma harmonia. Afinação acontece entre instrumentos musicais. A mesma nota repetidas vezes, a busca pela perfeição sonora e a certeza das similaridades entre um tom acima e um tom abaixo. A incrível mágica acontece quando os instrumentos musicais descobrem afinidades humanas entre si no mesmo instante em que os seres humanos descobrem afinações musicais dentro deles mesmos. - Teatro Mágico

Eu adoro essa poesia, e de repente fez todo o sentido postá-la. Passeando por redes sociais acabei na página de um cara da minha sala na faculdade. Ele tem um gosto musical incrível, gosta de bons livros e tem paciência pra conversar. Conversar de verdade, sabe? Ele é um cara legal. Mas enfim, passando por seu profile, vi um vídeo de uma música que adoro, do pixies, postada na sexta. E o mais engraçado, que é o ponto alto da questão, é que... bem... eu também tinha postado a mesma música, no mesmo dia, no meu profile. E eer... eu definitivamente não tinha visto que tinha um post dele com aquela música, então fui procurar a hora que ele havia posto o vídeo, que devia ser depois da do meu, afinal, ele até curtiu a minha publicação. Mas... não. Ele tinha postado horas antes de mim. E eu nem ao menos tinha visto. É engraçado como de vez em quando... afinidade acontece. Assim, com coisas... irrelevantemente atraentes. Era só uma música, e continua sendo. E mesmo assim... afinidade acontece de maneiras no mínimo... inesperadas, ou até mesmo... encantadoras.


ps.: o nome da poesia é 'mais e menos', porém, contudo, todavia, no decorrer desta incríiiiiiivel trama, achei que o nome proposto cabia melhor na ideia... entonces... sabe como é né. era só isso. (:

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

DezAcompanhada

Essas portas de rangidos ensurdecedores...
Esses dias de queixas indecifráveis...
O som de lágrimas e o silêncio de lamentações.
Tudo, tudo parece lamuriar uma falta que ainda não ocorreu.

Nos dias, correndo um medo que nem motivo encontrou.
Na vida, sinais sem previsões.
Nos cortes, dor fosca.
Nos lábios, seu cheiro.

E o mau agouro em asas de anjo.
E minha presença ausenciando futuro.
E você que nem passado rasgante.

Agora só, de solidão.
De companhia, auspício.
E de presença, o desacompanhar.

sábado, 15 de janeiro de 2011

O Poeta Aprendiz - Vinícius de Moraes

" ... achava bonita a palavra escrita.
Por isso sofria.
Da melancolia
De sonhar o poeta
Que quem sabe um dia
Poderia ser. "

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Labirinto de Palavras

O que ouço é alegre e melodiosamente agradável, mas minhas palavras parecem chorar.
Gotas escorrem fortes,
mas em meu peito nem uma mão sequer. Nada me aperta, só um vazio assobiante continua a perseguir.
Ouço vozes lá fora, mas nada compreensível ultrapassa minhas barreiras.
As pontes foram levantadas, alicerces erguidos, e agora?
E agora nada?
E agora cai?
E agora um vento forte que destronou o próprio trono?

E agora um sonho dentro do sonho.
Ou talvez só o meu labirinto de palavras
...

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Setembro

No céu lá fora a lua.
Tão cheia quanto meus dias.
Tão branca quanto as lembranças daquela cor...
E agora é só o seu cheiro e a conta que me deixou aqui para pagar.
Fecho os olhos e vejo o céu negro, as nuvens poucas e pontos brilhantes que nem tem nada a me significar. Não, nenhum significado esta noite.
Só a memória de uma lua desfalecida e a certeza de um sonho a me abraçar. É, meu sonho lindo a valsear pela mesa, pelos pratos mal comidos e a toalha me servindo de vestido.
Só as noites mal dormidas e carinhos de manhã.
E então abrir os olhos e se esquecer da lua, da dança ou de qualquer toalha amassada esquecida no fundo de lugar nenhum.
É só respirar e se convencer de mais uma manhã de setembro e um mês que está difícil de deixar passar.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Procura da Poesia

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à
[efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das
[casas.
Não é música ouvida de passagem; rumor do mar nas ruas
[junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultura e merencória infância.
não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e comtempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

Carlos Drummond de Andrade