quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Um Domingo

- Daí você prefere acreditar na mentira dele a minha verdade?
- É... – meus olhos foram de encontro ao chão. – Pelo menos da mentira dele eu posso ter certeza... – Levantei o rosto e meus olhos pediam desculpas, desculpas que não sairiam de meus lábios. Ele me encarou de forma diferente, procurando em mim uma interrogação que só existia em sua mente. Encarou-me por alguns instantes, mas não pareceu encontrar a resposta, então se curvou como se fosse dizer algumas últimas palavras, mas desistiu, se virou e caminhou em direção a porta.
Minha garganta ficou fraca, minhas mãos e braços tremiam, mas minha boca ainda conseguiu balbuciar um ‘não’ quase inaudível que o fez virar e o grito de meu peito sair:
- Fica. Eu... Não quero ficar sozinha. Eu vou ficar louca. Só assiste comigo alguma coisa que me faça rir e esquecer um pouco tudo isso. Depois...
Ele tampou minha boca com as mãos e completou:
- Depois a gente vê como é que fica.
- Não, mas você tem faculdade... Depois você pode ir. – minha voz já quase sumia novamente e eu via o contorno sujo de meu all star balançando na semi-escuridão.
- Isso é depois... Depois a gente vê isso. – Ele me abraçou como nunca até aquele momento havia feito, e me carregou para o sofá, onde ligou a televisão.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Setembro

No céu lá fora a lua.
Tão cheia quanto meus dias.
Tão branca quanto as lembranças daquela cor...
E agora é só o seu cheiro e a conta que me deixou aqui para pagar.
Fecho os olhos e vejo o céu negro, as nuvens poucas e pontos brilhantes que nem tem nada a me significar. Não, nenhum significado esta noite.
Só a memória de uma lua desfalecida e a certeza de um sonho a me abraçar. É, meu sonho lindo a valsear pela mesa, pelos pratos mal comidos e a toalha me servindo de vestido.
Só as noites mal dormidas e carinhos de manhã.
E então abrir os olhos e se esquecer da lua, da dança ou de qualquer toalha amassada esquecida no fundo de lugar nenhum.
É só respirar e se convencer de mais uma manhã de setembro e um mês que está difícil de deixar passar.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Um Corredor Qualquer

E mesmo agora quando me lembro, não sei o que pensar. Você me esperando chegar até você. E eu não querendo admitir caminhar mais uma vez em sua direção. Meus passos lentos arrastavam-se pelo chão, mas levavam tão rápido o tempo que nem ao menos pisquei e estava lá. E os seus olhos tão perto, e tudo em você que eu já não queria mais lembrar. E sua boca, e suas mãos e seus movimentos. Tudo tão... E de repente você só me olhou, e só me fez te olhar. Nenhuma pergunta, nada a responder. Só você e eu. E as nossas respirações rudes a competir com exasperação.
Às vezes foram só as cores de um passado soprado há tempos, vendavandeando a nossa volta. Às vezes foram só as suas memórias frescas a me aquecer. Às vezes foi tudo o que a gente quis e nem se deu o trabalho de tentar...

Às vezes a gente só deveria continuar dormindo e se esquecer de piscar no segundo seguinte, quando tudo parece passar.

domingo, 15 de agosto de 2010

Lágrimas de Céu

Cercada pela sombra escura da noite caminhei, sozinha, pela trilha já tão corriqueira e habitual. Caminhei pelas pedras pequenas e pouco irregulares. Caminhei silente, mas com um sorriso que gritava toda a paixão insistente na transbordância de meus olhos. Que gritava revoltoso, toda a repugnância de minh'alma com o amor fútil e a aliança fugaz de amantes impuros do mundo sujo que criaram. Que gritava toda a liberdade de algemas que nunca arrocharam meu corpo. Que gritava toda a leveza das gotas que se esvairiam de espaços negros tão mais altos que os arranha-céus.

Foi um sorriso doce que se escapulia sapeca, como uma criança que insiste em correr mesmo nem sabendo andar. Uma criança que correu, que corre e que voa de vez enquando. Como agora, quando as palpebras fecharam-se e os braços deslizaram rápidos pra logo em seguida planarem calmos e serenos. Como agora, uma criança vivaz que insiste em correr pra tão longe, tão distante, que nem andando conseguiria calcular. Que nem voando saberia quando chegar. Que corre mesmo não sabendo onde pisar. Que vai, vai, e enche o peito de um ar resvaladiço, passageiro contrário a sua direção. E se enche dele, deixa-se dominar até que nada mais não caiba lá. Até que suas pernas ardam e a curva esteja próxima. Então para e olha pra trás, olha o que deixou e consente que dancem pelos lábios deleitosos sabores de passado e saudade.

Enfim sigo andando com o sereno fino da madrugada de companhia e o pulso forte que não me deixa esquecer do quanto lágrimas de céu me fazem bem. De como esses brilhos que me encharcam a pele a fazem sorrir e vibrar com a perspectiva de novos dias. Ou noites.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

" You know that I can use somebody "
someone like you and all you know, and how you speak.




Mentira, a quem quero enganar? Eu não quero ninguém pra ocupar seu espaço. Nem você. Eu só quero meus risos que nem sei quando te dei e o meu velho amor que nem vejo mais ao cruzar os mesmos corredores. É só a antiga rotina, não essa bagunça que revirou meu quarto e carregou minha alma pra tão longe que nem sei... Eram só as mesmas páginas e a minha imaginação.
E não paro de me repetir o que sempre soube: não seria você. Mas a falta dos amigos de sempre e das pipocas à tarde, a falta de deixar alguém entrar e me distrair, mesmo que por algumas horas, faz meu coração que nem é seu levantar de vez em quando se te vê.
Eu só queria uns dias na praia e aquela companhia que nunca vai me lembrar de você ou de qualquer outro.