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domingo, 18 de março de 2012

Eu só queria

Por que assim? Eu só queria aqui e agora. Eu só queria... aqui... agora. Você. Seu riso, meu álcool. Minha imaginação, sua infâmia. Seu dia, minha noite. Seu cheiro e vontade. Sua vida e a minha. Aqui e agora.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Perfeitamente normal

É que tudo lá fora parece estranho, é como se ninguém fosse realmente compreender. É como se outras palavras não fossem sair da minha boca. E o que eu quero dizer saísse da sua. É como encontrar algo para se conquistar passo a passo. Cada momento. Cada sensação. Sem toda essa pressa, essa correria que vive me perseguindo e me levando a crer que talvez eu é que não esteja acostumada, mas as coisas sejam assim. É como perceber que eu nunca coube nesse papel de coitada ao qual costumo interpretar. De burra, boba e ligeiramente imoral. É como se eu só precisasse ser eu sem parecer louca dessa vez. Sem achar que é querer demais alguém que tenha conversas sobre coisas que realmente valham a pena, não esse jogar papo fora pra não perder contato, ou esse sexo verbal enquanto não posso te ver. Palavras de verdade, palavras de alguém que se importe em não parecer ridículo. Mas se importe de não parecer esse ridículo que todo mundo insiste em taxar de ideal, um gato que te satisfaz. Não, eu não vim aqui pra isso. Eu vim pra dizer que por mais que tente me convencer que me encaixo nisso tudo que vocês juram chamar de amor, alguém sussurrou no meu ouvido que o que dizem não precisa ser verdade. E que eu posso fazer sentido sem nada disso.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

É também o amor

" Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos;
Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado.
"

I Coríntios 13, 9-11

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Metade

Mas ele já estava quebrado, e de brincadeira virei brinquedo. Eu sei, eu sei, que talvez a intenção da criança não tenha sido jamais me machucar. Mas é impossível não machucar alguém quando já se está machucado. Não quando o assunto é o amor. Por mais que se tente distanciar, criar barreiras entre o que já foi e o que pode ser... Na verdade só o que conseguimos é uma confusão maluca de fatos incompletos tentando te completar, te enchendo de pedaços. Te deixando sem cola. E você fica perdido naquele meio todo até que alguém te puxe, e você me puxou, criança. Mesmo sem querer, mesmo querendo se equilibrar, você também me puxou. E depois parou. Olhou para o tempo e disse que talvez fosse chover. E se sentou na terra fria, esperando o cheiro da chuva. Para que você pudesse encher os pulmões e acreditar que foi tudo real. E eu sentei ali do lado, tentando te acompanhar. Tentando viver de novo também, procurando um chão que me sujasse, mas que me fizesse crer. E você achou que eu estava ali só seguindo seus passos, só por não ter mais aonde ir. Mas essa nunca foi a questão. Eu fui porque quis, eu fui porque quis crer nas palavras que um dia repeti pra alguém, palavras que você repetiu pra mim, criança. E eu não ia fazer, e eu não fiz, nada que não gostaria que fizesse comigo. Será que você entende?
E eu continuo aqui, sentada na terra, vermelha, esperando você sentar de novo. Pra poder ouvir seu nome, e te mostrar que não, não precisa deixar de acreditar que pode ser diferente. Porque eu não quero saber pra onde você vai, só se vai continuar pensando em mim, antes de dormir ou assim que acordar, pra me fazer crer que não fui só eu que sonhei. Eu também não estou inteira, mas eu não quis me dar pela metade, porque metade não me completa e eu te quero inteiro. Então espera viu? Espera a gente se completar pra que então você possa ser meu, só meu, mas meu inteiro. Eu não quero só meu sua única metade. Eu quero a outra parte, a parte que ficou naquele apartamento, que ficou junto com as mágoas e os desapegos... Eu quero você pra poder dizer é meu, e você com orgulho poder repetir: Graças a Deus.
Você parou, esperando que dessa vez eu fosse te levar, e eu amarrei uma pulseirinha na sua mochila criança, mas você não viu. E achou que eu fosse levantar e te deixar ali até que outro alguém parasse e quisesse te carregar. Eu não te deixei criança, foi você que não veio comigo. Eu te chamei lembra? Mas você ainda não estava pronto. Então espera, deixa só buscar um copo de água e a gente volta aqui, e deita no chão, daquele jeito que eu te ensinei... Não importa que a terra vá ficar no cabelo, daqui a pouco a chuva cai, e leva tudo, tudo mesmo criança... Até nós dois para um lugar melhor. Mas você tem que querer vir. Vem?

domingo, 14 de agosto de 2011

Só Meu

"Só o amor não concretizado é romântico..."
(Vicky Cristina Barcelona)

E pra que dizer? Faz que nem eu, faz! Só fica, que o silêncio é mais verdadeiro. Se não quer, não diz. Faz que nem eu, faz! Era bom não ter nada e só um verão pra aproveitar. Melhor que esse tudo e quase nada pra levar. Agora diz, pra que? Esse silêncio agora não é de paz, é de covardia. É do que eu não disse, mas que você nem admitiu querer, fingiu nem cogitar a hipótese. Era só dizer tchau. Era só não me pedir pra ficar, era só não me guardar pra te proteger do amor que ainda sente. Que eu sabia, que eu sei. Que eu nem ligava. E que você nunca me deixou esquecer. Quer dizer, melhor assim. Mas precisava disso tudo? Era só ter me deixado em casa. Depois do tchau.
É o trigo no campo, que parece balançar de novo, tão loiro quanto antes, tão velho quanto antes. Tão só que me deixa ir sem soprar no meu ouvido. Que não me vê ir embora, mas que ainda assim diz que correu pra me encontrar. Eu já conheço esse refrão, só meu. Eu já conheço esse refrão...

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Samba da Despedida

E diz que é mentira, que não aconteceu, que não é comigo, que eu posso esquecer e voltar a dormir. Diz pra mim! Diz que não sentiu, que não sente e que não vai sentir. Não sobe o meu ego não vai! Leva ele pra longe, pra baixo, pra sarjeta ou pro inferno se necessário. Inferno aliás, é inverno no Rio! Sem edredom, brigadeiro e o abraço. Aaaah, o abraço! E aquele perto que parece longe só pra acabar com a distância que sufoca na proximidade. Sufoco, aliás, é tentar se desculpar por algo que nem se fez ainda. Mas me entenda meu caro amor, eu amo assim, largado, sozinho e sem colo. Comigo e bem acompanhado, você já tem quem te ninar... E eu fujo, fujo meu bem, de colo ocupado. Não quero ocupar o lugar de quem já te pertence! Deixa o cantinho dela te acompanhar. E te largo aqui, pra voltar pro samba. Eu sei o que é um desamor, e eu sei que é pecado. Mas me entenda meu caro amor, eu amo assim, buscando um colo desacompanhado. Se quiser, vem me buscar, e nossos pés se encontram na passarela. Só não se esqueça que o fim da noite pertence ao sol e não volto pra casa com o namorado dela. Só não se esqueça que o fim da noite pertence ao sol e não volto pra casa com o namorado dela...

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Hoje foi só realidade

Acordei. Sim, hoje não foi cinismo, não foi cansaço, não foi doidera. Hoje foi só realidade. Vai ver até decepção.
Hoje senti pena, senti perda, senti perdão.
Hoje me disse que tudo mudou e que eu não deveria mudar. Mas que sem mudar, acabei mudando. Que sem querer, acabei fazendo. Que sem buscar, encontrei.
Hoje vi mentiras mais verdadeiras que todas as verdades que eu possa afirmar. Hoje vi uma só que se tornou um monte. Hoje eu me vi um monte. E quis o monte virando montanha e implodindo em mim de novo. Mas montanha não implode, e eu de uma, convivo comigo mesma. Um eu que não pude nem ao menos criar. Um eu que história minha não tem, que não me lembra, que não existe em mim. Um eu que tem vindo a minha frente e mesmo assim tem conseguido me atropelar. E eu de pena, continuo a observar cordas e mais cordas se enrolando. E eu de boba, continuo deixando o fio se desenrolar. Desenrolando o carretel inteiro um dia a fita acaba, um dia se assopra a palha, um dia a casa cai. E eu de lobo derrubo, e eu de vermelho também sou devorada. E não importa, a ciranda continua misturando os personagens. Um dia chego ao fim. Quem sabe eu, quem sabe alguém, quem sabe o que inventaram de mim.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

É só que...

Acordei cansada. Cansada por um dia que nem ao menos havia começado. Cansada por um ano denso e cheio de laços mal acabados que dirá desfeitos! Cansada por uma vida curta, mas com muitas, muitas histórias longas e nem sempre reais.

Cansada dos carros, das pessoas e das situações. Cansada das paradas, das queixas e até do sono pela tarde. Cansada da rotina dura e segmentada. Cansada do parar que nunca significa parar. Que é só um descanso insignificante no meio da confusão que a vida se tornou. Que significa continuar uma merda de rotina que não te leva a lugar algum. E continua te deixando parado. Independente do quanto você corra, do quanto você faça. Que te transforma em uma estátua ambulante. Com um monte de sorrisos montados e movimentos automáticos.
Acordei, contudo a vontade de abrir os olhos não me acompanhou. Quis continuar assim, deitada, ouvindo muito pouco do que ainda não começara e de resto sem mais sensações. Talvez o aconchego da cama a me acariciar a pele e o ego também. Ou o gosto seco da boca de manhã. Mas a acrescentar, nada.

Acordei mais uma vez sem rumo, direção, sentido. Acordei sem mim. Sem o que me acompanhar. Acordei com olhos já abertos e tive vontade de fugir. De correr. De gritar. Mas me calei diante de todo o barulho lá fora.

Acordei e vi luzes acesas esperando por seus donos a lhe darem descanso. Acordei e vi cartas sendo entregues, ruas sendo limpas, guarda-chuvas sendo fechados. Eu vi o sol brilhar opaco lá fora. Montes de paisagens sem significado. Li mensagens ocas e verdades vazias. Encarei mentes indiferentes a realidade pobre por todos os lados.

Minha janela tinha olhos grandes e arregalados. Não queria acreditar. Só encarava muda aquele monte de sensações e uma realidade que procurava não enxergar. Fiquei parada assim um tempo, não sei quanto. Enfim um velho passou embaixo da sacada e me sorriu, como se tudo ali fizesse sentido. Depois me encarou e disse:

- A vida é assim mesmo, filha. Um dia a gente para e vê que valeu a pena. Mesmo aqueles dias em que grita como um louco e ninguém te ouve. Até quando toda a tristeza do mundo quer te sufocar. Você descobre que venceu, mesmo que na época não soubesse de quem ou do que. Não precisa parar para perceber isso. Vai acontecer. Mas se antes disso sentir que o tempo pode cessar ou seguir eternamente, desculpe minha filha, mas você morreu.

domingo, 19 de dezembro de 2010

O que eu tinha pra falar

Vontade de gritar. De dizer que não espero nada do futuro e que posso fazer. Que quero tudo agora e não faz o mínimo sentido esperar. Te repetir que admiração não é amor e não me importa o que parece certo. Que não sei de nada e vou continuar sem saber. Mas não tenho a menor dúvida quanto ao que não quero deixar de arriscar. Que deixar pra ser eu mesma depois é exatamente o tipo de erro ao qual não pretendo cometer mais uma vez. Berrar minha impulsividade até você entender e tapar todos esses buracos que ficaram no caminho entre nós dois. Te abraçar forte com a certeza do que sinto e te pedir pra repetir tudo de quando você não tinha certeza de nada.
Vontade de gritar sem me sentir culpada. Ou de dizer que não mando na merda do meu coração. E que ninguém manda. E que eu já não sei mais o que você quis dizer. E que esse monte de pontos de interrogação não me servem nem de pergunta nem de resposta. E que tudo como está pode ser insuportável às vezes. E dizer que não quero nada, nem seu futuro, nem sua presença, nem suas lágrimas. Só a certeza de que também sentiu o que arrastou o meu peito e o fez vibrar. Que os seus braços ao meu redor foram de verdade e que meu pescoço não imaginou o que sentiu.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Lóri

" Lóri, pela primeira vez na sua vida, sentiu uma força que mais parecia uma ameaça contra o que ela fora até então. Ela então falou sua alma para Ulisses:
- Um dia será o mundo com sua impersonalidade soberba versus a minha extrema individualidade de pessoa mas seremos um só.

Olhou para Ulisses com a humildade que de repente sentia e viu com surpresa dele. Só então ela se surpreendeu consigo própria. Os dois se olharam em silêncio. Ela parecia pedir socorro contra o que de algum modo involuntariamente dissera. E ele com os olhos miúdos quis que ela não fugisse e falou:
- Repita o que você disse, Lóri.
- Não sei mais.
- Mas eu sei, eu vou saber sempre. Você literalmente disse: um dia será o mundo com sua impersonalidade soberba versus a minha extrema individualidade de pessoa mas seremos um só.
- Sim.


Lóri estava suavemente espantada. Então isso era a felicidade. De início se sentiu vazia. Depois seus olhos ficaram úmidos; era felicidade, mas como sou mortal, como o amor pelo mundo me transcende. O amor pela vida mortal a assassinava docemente, aos poucos. E o que é que eu faço?
Que faço da felicidade? Que faço dessa paz estranha e aguda, que já está começando a me doer como uma angústia, como um grande silêncio de espaços? A quem dou minha felicidade, que já está começando a me rasgar um pouco e me assusta. Não. Não quero ser feliz. Prefiro a mediocridade. Ah, milhares de pessoas não têm coragem de pelo menos prolongar-se um pouco mais nessa coisa desconhecida que é sentir-se feliz e preferem a mediocridade. Ela se despediu de Ulisses quase correndo: ele era o perigo. "
(Clarice Lispector - Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres)

sábado, 17 de julho de 2010

Pela Primeira Vez

E ele me olhou, com olhos de quem vê pela primeira vez. Pude enxergar de novo o que já há muito não via mais: seus olhos quentes sobre mim, e meu sorriso que dançava pela boca.
Eu tinha sentido falta daquele rosto, dos dentes e do cheiro. Apesar do tempo, ainda me sentia no colegial. Afoguei-me de lembranças do que foi e do que poderia ter sido. E seus olhos distantes pareciam afogar-se comigo.

Foram alguns instantes em que voltei ao deserto de encantos e loucuras que ficaram pra trás. E por que ficaram pra trás? Já nem sabia quando, já nem sabia como... Já não havia pensamento que pudesse se organizar. Não me perguntava o que ele fazia ali, onde eu estava ou o que fora buscar. Meu corpo inteiro parecia concentrado em transbordar tudo aquilo que deixei que fosse. Tudo aquilo que nem sabia sentir mais.

- Oi. – foi só o que disse. Oi. Eu podia esperar qualquer coisa, mas oi? Contudo, logo em seguida, compreendi. Vi seus olhos desviarem-se, senti a sonoridade curta e tímida da pequena palavra e tudo o que ela poderia querer dizer.
Eu sorri.
- Oi. – foi só o que também saiu de minha boca, porém este não. Este foi mais lento, mais lânguido... Como se reproduzisse todo o silêncio de minha mente e o tempo triste que se fora. Fazia tanto tempo... Do que mais eu poderia me lembrar?
- Você ainda morde a boca quando pensa... – encarei-o intrigada. Seus olhos ainda eram tão doces quanto antes.
- É, eu, aah... Eu nem tinha reparado. – soltei a respiração forte e de uma só vez, também não notara que a andara prendendo.
- Haha, eu sei que não. – ele sorriu de lado, como fazia quando sabia que tinha razão. Talvez aquele fosse também seu sorriso de flerte. Não sei exatamente, ele nunca funcionara pra mim. Eu gostava muito mais... – Tão distraída como sempre. – olhei pra baixo e encarei meus pés que se cruzaram rapidamente.
- Novidade... – revirei os olhos. – Então, uuhn... O que anda fazendo por aqui? – ele me olhou com um pouco de espanto, o que não durou muito, pois pareceu lembrar-se de algo.
- Eu, aah, vim te ver. Não é óbvio?
- Rápido demais. – na-ná, ele ainda achava que conseguiria enganar a mim?
- ... Bem demais.
- Que?
- Nada.
- Ora! – cruzei meus braços em relutância. Puf...
- Haha, eu senti mesmo falta desta cara! – e então ele fez de novo, mais uma vez ele poderia me convencer de absolutamente tudo. Era o meu sorriso. Seus olhos viraram como quem está à espera de algo, que aparentemente não veio. Então continuou:
- Minha irmã está vendo uma proposta de emprego aqui, tranquei a faculdade, ‘tava pensando talvez em me mudar...
- Ah, eu aahn... Legal, sua irmã vai gostar daqui. Já não me vejo em outro lugar. Isso tudo parece parte de mim agora...
- Como um dia eu fui.
- Ahn? – suas palavras embaralharam-se em minha mente. Ele simplesmente não poderia ter dito o que achava que ele havia dito, poderia? – Doug, pra que isso agora? Por que só agora?
- Jane, eu não entendo, por que ‘tá falando assim comigo?
- Doug, eu que não ‘to entendendo! Eu fui embora há quase cinco anos! Sabe quantas vezes eu te vi esse tempo todo? Sabe quantas vezes eu vi seu número tocar? Ou quantas vezes eu pensei em voltar? - imaginei muitas vezes essa conversa, mas em nenhuma delas vi esse caminho, não acreditava no que eu mesma estava fazendo. Não, nem pra mim fazia sentido. – Você sabe quantas vezes cogitei abrir mão do meu maior sonho, Doug? Sabe?
- Não, eu não sei. – ele soltou uma respiração forte. – Eu só sei que atravessei mil quilômetros de estrada, deixei minha faculdade trancada, corri como um maluco pela cidade... Tem noção como é difícil encontrar seu número garota? Nem a Alice tinha isso mais!
- É lógico que não, ela quase não fala mais comigo desde que mudou pra Niterói, foi terminar o colegial lá, que seja... Você devia saber...
- Não é essa a questão, Jane! Que me importa a Alice? Que ela se exploda! Aliás, que essa cidade se exploda! Eu vim aqui na esperança de te ver outra vez! De novo...
- E a sua namorada?
- A gente não ‘tá mais junto.
- Por que trancou a faculdade?
- Eu não sei se é isso mesmo que eu quero.
- Então é isso? É esse o resumo? Você me aparece do nada, com sua vida fudida, querendo que eu a conserte mais uma vez?
- Você só pode estar brincando... Onde você aprendeu a falar assim? Eu falei que esses paulistas iam mudar a sua cabeça! Eu não devia...
- É, não devia mesmo! – a esta altura eu quase gritava, os sentidos borbulhavam por mim. – Você não devia muita coisa Doug! – tentava me acalmar, meu rosto fervia, devia estar vermelho. É, era como sempre acontecia... Há tanto tempo que já não acontecia... – Não devia muita coisa, mas bem, - soltei uma risada de escárnio – agora não faz muita diferença mais...
Ele abaixou a voz:
- Não faz? – aquilo parecia doer nele, tanto quanto nunca doeu em mim. Minha dor foi lenta, curtida, mas saboreada pouco a pouco. Não era como a dele, não, não, eu sofri tortura, ele talvez pena de morte. Mas ele não ia morrer mais, não mais.
Foi só um sussurro:
- Não mais... – e então eu vi a distancia, vi se aproximar devagar, com passos de quem não quer atrapalhar, com olhos de quem poderia devorar. Tão intensos quanto os dele; tão iguais na força, tão diferentes na razão... Tão mais meus.
Seus cabelos quase raspados e seu andar distraído eram tão diferentes do homem a minha frente quanto suas atitudes. Ele estivera comigo, a paciência fora dele, o tempo amargo também. Construímos aquelas pontes, elevamos montes, derramamos mar... Com o moreno havia sido diferente. Ele era o amor da sua vida. Fora forte, quase irresistível. Fora meu, mas fora pouco demais. Eram dama e cavalheiro sem assumir a dança. Nunca saímos do salão. Não, não, era mais forte do que poderíamos entender. Éramos jovens demais pra poder arriscar. Ou quem sabe um tanto tolos demais.
Sem querer eu sorri.

Ele acompanhou meu olhar, entendeu logo em seguida. Eu não poderia esconder, ele sempre entenderia sem que eu precisasse dizer. Seus olhos baixaram. Vi sua dor.
- Aham, eu já entendi. Eu... – ele perdeu as palavras. – só não faça na minha frente, ok?
- Ah... Doug... – Já sabia o que dizer, mas de repente ele só assumira seu lugar e falara tão igual ao loiro que quase me confundi. Eu quis fechar os olhos, quis voltar atrás. Quis o perfume de novo e o sorriso ao me ver outra vez. Quis todo o simples de antes. Quis, mais uma vez, ter feito tudo que deixei pra depois.
Mas ele chegara, passara a mão pela minha cintura e me apertara um pouco contra seus braços. Então me olhou nos olhos:
- Quer que eu saia? – foi quando vi. Ali, na minha frente. Era o que os diferenciava. Não eram os cabelos opostos, nem os olhos verdes: mais claro e mais escuro, não eram os ombros largos e fortes de Doug, nem seu bronzeado forte. Não era a pele clara de Tom, nem seu sorriso limpo. Não era a diferença em seus tons de voz, nem a força do abraço.
- Não, você pode ouvir. Foi ótimo te ver outra vez Doug, me liga se precisar de uma guia por algumas horas. Agora eu tenho que ir, tenho uuhn... Qualquer coisa com o meu namorado. – Era aquele brilho e a confiança que punha em mim. Ele sabia muito melhor do que eu mesma do que era capaz.

domingo, 4 de julho de 2010

Minha casa com você e o meu caso também

Talvez seja isso então. Ser adulto. Descobrir que seus sonhos serão quebrados e que você não vai trabalhar como quer. Você não vai salvar todas as crianças da África antes que gaste o melhor de sua disposição “salvando” rostos saudáveis. “É que eles precisavam de um reparo!”, é o que vão dizer. “O que precisava de um reparo era seu cérebro, seu duente!”, é, eu sei que vou pensar. Que bom para mim, pelo menos o cérebro de alguém tem que funcionar. Você também não vai salvar inocentes da apartação de tudo o que conhecem e tudo o que mais prezam. Não, não. Não antes de uns trinta anos trabalhando para impedir mais que a segregação, mais que a saudade dos filhos. Talvez pra garantir só alguns milhões a menos e alguns culpados que nem eram tão culpados assim. Talvez ninguém pense nos filhos quando pensa em tanto dinheiro. Talvez nem... Afinal, como se vende o amor?

Talvez depois de trinta anos você nem queira mais salvar ninguém, talvez aprenda a gostar de verde com toda a sujeira que vai ver. Talvez desentenda o que queria dizer quando tinha tempo pra pensar. Além do mais você não vai poder construir prédios chocantes, nem pontes que liguem cidades sem abastecimento. Nem construções enormes e muito coloridas, pra contrastar com as cores opacas das cidades. Não vai fazer um edifício pintado a letras de músicas do legião, nem uma chalana com um jardim-floresta no centro de São Paulo. Quem sabe alguns edifícios chatos e brancos que vão precisar sem repintados de dois em dois anos, com suítes e banheiras para todos os apartamentos. Além da enorme piscina e a vista pra praia, é claro. Talvez a praia se torne até particular. É, um dinheiro tão bem investido... Deve ser realmente louvável saber que foi o criador de tanta futilidade. E um viva aos lucros! Talvez você faça algumas entrevistas de que goste e muitas de hipócritas tão grandes quanto você. Talvez cuide de um zoológico inteiro. E então vai pensar: mas que ótimo! Pelo menos eu faço o que gosto e como gosto! Sim, lindo. Com animais presos. Realmente, louvável.

E vai parar, começar a pensar e procurar um sentido nisso tudo. Algum motivo pra continuar, algo que lhe dê forças. Talvez até pense em si matar. Ou mudar pro Hawaii e montar um restaurante. Às vezes em virar um naturalista ou um ativista no Tibet. E então se lembre de seus filhos, e de sua mulher. De como o sorriso dela pode fechar todo o quarteirão e parar o transito de uma cidade inteira. Ou ao menos o transito de sua cidade inteira. Vai lembrar deles correndo pelo jardim e pensar em como coisinhas tão lindas podem ter saído de você. Lembrar da mais nova gaguejando “papai”, e do mais velho aprendendo a jogar de verdade. A do meio com o skate no pé. O mais velho lhe vencendo na corrida. A do meio aprendendo a cantar. Da onde ela tirou aquela afinação? Ele nem devia saber cantar mais... A mais nova pedindo colo. O mais velho ajuda no dever de casa. Eles comendo pipoca na sala, e os olhos da mulher junto aos seus. Como fora que conseguira alguém tão perfeito assim? Por que mesmo ela lhe escolhera? Então vai pensar em como é sortudo. E em como foi ridículo pensar em si matar, ou em achar que tudo é ruim, que tudo é muito ruim, como todos parecem querer mostrar que é. E vai querer correr na praia de manhã e levar os filhos no parque, vai querer levar a família pra morar lá e depois rir da ideia. Quando fora mesmo que perdera a capacidade de rir assim de si mesmo? De querer o louco? De buscar aventuras? E vai pensar que talvez esteja ficando velho e de que devia levar a mulher ao Monte Santa Helena, como ela sempre quisera ir. Que deviam se mudar pro Hawaii e abrir aquele restaurante que sempre sonharam. Ou passar um ano velejando no projeto de sua esposa. E vai pensar na merda de trabalho que escolhera e como ele ocupava tempo demais de sua vida. De como era ruim trabalhar cinco dias pra viver só dois. De como não lhe valera de nada ganhar bem assim. De como seus maiores prazeres agora não vinham do dinheiro que tinha. E de que tudo o que lhe trazia sentido na vida nem em último lugar o trabalho tinha alguma relação. E vai querer saber da onde tirou a ideia estúpida de trabalhar com isso e não ser comentarista de esportes. E talvez perceba que o problema não era com as profissões, era com seus sonhos. E onde os guardara. De como gastara um tempo idiotamente grande se tornando tudo aquilo que sempre ridicularizava e ironizava. E chegue em casa e conte a sua mulher tudo o que queria fazer e de que essa vida não era tudo o que ele sonhara. Ainda. E ela lhe beije e diga que o ama e que um ano velejando era tudo o que ela precisava ouvir. E você se demita, ou tire férias pra começar a pensar em algo novo pra fazer. Ou começar a procurar nos classificados uma casa no Caribe. Talvez você também descubra que não é tão fácil assim, e talvez passe por dificuldades. Mas em meio à busca nunca mais pare pra pensar em se matar de novo. Porque apesar de todo fodido e sem dinheiro, você tem a mulher dos seus sonhos, filhos lindos pra criar e várias páginas em branco pra escrever. E que apesar de tudo estar uma bagunça com a sua mudança de casa, sua vida não poderia ser mais perfeita. E descubra que quando se faz o que se gosta, não importa como, as coisas simplesmente se acertam.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Dezenove

Abro os olhos, conto um a um: dezenove pela janela, eles sorriem. Canela, um pouquinho de avelã, tão meu, tão familiar que o peito até dói. Nada de lembranças, nada que me faça correr, apenas o gosto estranho de sono bem dormido. Minhas mãos apertam os lençóis. Mas logo me encolho e me estico, meus dedos tocam os olhos, meus dentes mordem os lábios, são eles que estão indo. Dezessete eu já tenho, mas quantos verei quando tiver dezenove? Talvez eu nem saiba mais contar... Vai ver serão os mesmos, mas mesmo assim eu não os veja. Talvez eles cantem, ou me gritem até enrouquecer... Quem sabe eu fique surda. Talvez entrem mais pelo vidro que irei ganhar ou vai ver eu os prenda em uma garrafa. Não, não, eles vão estar lá. Vão com suas cores, vão por minha sombra. Eles vão comigo. Talvez eles cresçam, ou quem sabe encolham, mas ainda assim, sempre estarão por perto. Além do mais, pela janela ela também me vê. E ela eu sei, nunca nem pode me deixar. Meus dentes me apertam de novo, não me lembro quando ele sorriu pela última vez com as palavras, mas elas estavam correndo outra vez. Ainda bem, eu também preciso delas.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

O Que Ela Costumava Ser

Ela costumava ser bem melhor, ou nunca repara o quão ruim era. Ela costumava gostar mais de si e ter muito o que dizer. Ela costumava chorar, mas não ia dormir triste. Ela costumava entender o que eles queriam, ou assim ela sempre achou. Ela costumava ser impulsiva, mas bem, isto ela continua sendo. Ela costumava ligar, ou só pedir um abraço. Bom, isto ela já nem precisa mais pedir. Ele sabe quando deve. Mas ele está longe demais, ou mais perto do que deveria. Ele ultrapassa barreiras e invade caminhos que nem ela mesma conhece, surpreende com coisas que ela devia saber. Entra sem pedir, invade sem querer. Toma seus espaços. Ela costumava não deixar ninguém entrar, ou talvez eles só não pedissem licença. Ela costumava não se acomodar e fingir não estar surpresa. Aos poucos ela se acostumava com os pedidos e se esquecia da janela aberta.

Ela costumava saber o que fazer, ou sempre faziam o serviço pra ela. Ela costumava estar no centro, mas conhecia um centro só. Ela costumava abraçar o mundo e conseguir se equilibrar. Ela costumava achar que escolhas a faziam perder, mas aprendeu que escolhas a fazem ganhar. Ela costumava ser rebelde, contudo não tinha causa. Ela costumava ser vaidosa, mas não se meter em encrencas. Ela costumava ser intensa, mas não demais. Ela costumava gostar do ar da manhã, e não sentir só o da noite. Ela costumava ouvir música sem letra, agora escuta letra sem música. Ela costumava ser doce e inteligente, e esconder as gotinhas de limão e esperteza só dentro do bolso. Ela costumava tomar partido dos oprimidos, mas não estar ao lado deles. Ela costumava gritar a sua vontade e ter o que queria, mas não ficar descontente assim também. Ela costumava se enterrar na areia e depois fugir pro mar. Ela costumava entender quando evitavam-na, mas não eram seus amigos que costumavam se afastar. Ela costumava entender quem andava com ela, agora ela só sabe quando andam. Ela costumava saber se divertir, ou pelo menos escapar. Ela ainda sabe escapar, mas não costuma se divertir com isso. Ela costumava saber a hora de parar; ela continua sabendo, mas já não consegue se conter. Ela costumava ser muitas coisas, ela ainda costuma ser. Mas já não é como antes.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Nos Olhos do Gato

A solidão vinha com um gato silente e manhoso. Agarrando-me pelas pernas. Prendendo-me ao chão frio. Deixando-me com as cartas mal embaralhadas e um sorriso tosco pelo rosto.
Enquanto seus olhos tristes tocavam-me o coração, sorrateiros amontoavam toneladas de desespero aos meus pés. De onde vinha tanta infelicidade? Um gato tão manso... Condenado a arrastar consigo todo o mal-estar possível. Era como um alcoólatra. Compulsivo. Trazendo-me todo aquele lixo como sacos de suculosas frutas. Doces. Mortais. Contaminadas com veneno pra alma. Programado para desfibrilar todo o composto etéreo de meu brilho. Suas garras afiadas fatiavam minha paz, furtavam-me a esperança e desligavam o som.
Depois da dor seu pelo macio afagava-me com uma doçura insuportavelmente embusteira. Era assim, mordendo e assoprando, que me dominava.

Tornou-me dócil como seu suposto perfil.
Enfim enfeitiçou-me.
Marionete de suas dores me tornei.
Vendedora de suas ilusões.
Enfeitei seus brinquedos, fi-los vender. Aaaah... e como solidão fantasiada vende! Todos adoram histórias de pobres amordaçados para descontrair.
Serva de minha própria rotina.
Robô de meus próprios comandos.

Ordens programadas levaram-me por outdoors rasos e superficiais. Contudo, apesar de simples, as mensagens trouxeram-me as velhas chamas das palavras. Letras enfileiraram-se por caminhos sinuosos conduzindo-me a brumas distantes e tochas soberanas. Incendiaram minhas lembranças. Os olhos refletindo o pôr-do-sol... Um suspiro úmido soprando-me pequenas verdades... O grito selvagem das ondas do mar...
Dias silenciosos... E o gato que definhava pelos cantos. Derrubando as paredes mudas que cercavam-me como torres assombradas. E então o sussurro breve anunciou a sentença:
_ Quem tem fé sabe que não está sozinho.
E de repente, de pequeno o gato virou nada, nem um último miado a me assombrar. Somente um ronronar em meu corpo anunciando o fim.